O empresário Mário Jaskulski gastou recentemente R$ 30 mil para trocar todo o cabeamento e o sistema elétrico da empresa de beneficiamento de cereais Tio Mário, no Distrito Industrial de Barreiras, no Oeste da Bahia. Por conta do problema de fornecimento de energia na região, agravado pela falência da empresa responsável por obras de linhas de transmissão na região, Jaskulski optou por adiar investimentos dez vezes maiores até a solução da situação. Ele é apenas um dos muitos prejudicados por atrasos nas obras, sob responsabilidade do governo federal.
Além de dificultar o desenvolvimento de indústrias no Oeste baiano, o atraso de quatro anos na construção de novas linhas de transmissão, a chamada rede básica, prejudica o agronegócio - que precisa de energia para projetos de irrigação e o beneficiamento dos produtos -; a população, sujeita a oscilações de tensão e períodos sem fornecimento; além da Coelba, que precisa da infraestrutura federal para fazer o trabalho dela, que é distribuir energia.
Atualmente, a energia do Oeste chega por uma única linha que tem mais de 50 quilômetros de extensão. Qualquer problema nela e meio milhão de habitantes de 24 cidades baianas e agricultores de um dos principais polos de agronegócio do País ficam no escuro. “Se romper, todo o fornecimento da região é interrompido”, explica o gerente do Departamento de Planejamento de Rede da Coelba, Joe Tavares.
No centro do problema está a obra de uma linha de transmissão que deveria ser instalada por uma empresa que faliu sem concluir o serviço, a espanhola Abengoa. Sem previsão para solução definitiva, o governo da Bahia e representantes do setor produtivo apostam em soluções técnicas pontuais para reduzir os prejuízos causados pela situação.
O Ministério de Minas e Energia (MME) se comprometeu a reforçar o abastecimento entre as subestações de Gilbués II e Barreiras II, o que deve permitir um alívio temporário para o problema, de acordo com a Secretaria de Infraestrutura da Bahia (Seinfra). Interlocutores do empresariado e do governo baiano ouviram do MME que o paliativo para a situação deve estar concluído no primeiro trimestre de 2017.
A Abengoa era responsável pela construção de uma linha que traria 500 mil volts de Belo Monte para Barreiras. A linha atual que serve ao Oeste baiano tem capacidade de 230 mil volts. Além da obra, estão previstos reforços na estrutura que vão ampliar a capacidade de fornecimento para a região e a qualidade da energia. As distâncias são muito grandes, o que provoca problemas com o nível de tensão.
A região se desenvolveu bastante, puxada pelas safras expressivas, o que provocou um aumento de carga. Parte das obras que estão atrasadas tinham a previsão de entrega para 2012. Mas com o fim desse dilema haverá um outro cenário, apostam os especialistas. “Com os dois sistemas, a região vai ter uma estrutura de transmissão robusta”, afirma Tavares.
Investimentos em espera
“Temos grandes problemas com queda de energia no Distrito Industrial de Barreiras que chegam a danificar máquinas e computadores”, conta Mário Jaskulski. A empresa gastou R$ 30 mil para trocar a estrutura elétrica danificada por conta de oscilações de energia. “Temos uma linha de produção da indústria que se parar um motor para toda a indústria e tem que come çar tudo novamente”, explica. A situação compromete os planos de investimentos da empresa.
“Estive no Paraguai visitando uma indústria de máquinas de arroz e me interessei por novos maquinários modernos, mas não dá para investir R$ 300 mil em um equipamento que pode ser danificado com as quedas de energia que ocorrem por aqui”, lamenta. Segundo ele, outras empresas do setor se interessam pelo potencial da região, mas são afastadas pelo problema.
O empresário Adilson Rosa Ribeiro, presidente da Associação das Indústrias do Distrito Industrial de Barreiras (ADIB) diz que os produtores da região têm dificuldades em montar novas máquinas por conta da limitação energética. “Toda essa falta de energia pode inviabilizar a região em um futuro bem próximo, pois o fornecimento hoje está no limite. Criamos uma expectativa em relação ao socorro eventual que as linhas da Abengoa representavam e não veio”, conta.
Segundo ele, as projeções são de aumentos no consumo energético, mas faltam garantias. As quedas de energia provocam perdas de material. As indústrias que trabalham com máquinas contínuas também têm sofrido bastante”, diz. “O governo não se preocupou em aumentar a oferta de energia e agora estamos caminhando para um futuro duvidoso”, lamenta.
A situação também leva problemas para o campo, onde as limitações vão desde a iluminação de residências até ao incremento da irrigação, fundamental para o desenvolvimento do Oeste. O presidente da Associação Associação Baiana dos Produtores de Algodão (ABAPA), Celestino Zanella, afirma que os prejuízos são incalculáveis. “Sem energia não tem irrigação, nem indústria, nem nada”, afirma.
Zanella conta que diversos projetos foram planejados levando em conta as linhas de transmissão que o governo federal projetos nos últimos anos, mas não entregou. “Os produtores e empresas que fizeram investimentos tiveram sérios problemas”, diz. Segundo ele, a casos, como o da Coarceral, que investiu em 250 mil hectares de lavoura e “não tem energia nem para iluminar uma casa”.
“Aqui, a energia é limitante. Não dá para implantar um novo projeto de irrigação sem energia ou fazer qualquer melhoria. A gente começa a processar o algodão, sofre várias quedas de energia e precisa reiniciar o processo”, diz.
Joe Tavares explica que, na situação atual, a Coelba está impossibilitada de ampliar o atendimento no Oeste como gostaria. “Nós compramos a energia para distribuir. Sem a rede básica, que não é de nossa alçada, ficamos impossibilitados de atender como gostaríamos os nossos clientes e de ampliar o nosso serviço”, afirma Tavares. (As informações do Correio)
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