Uma história de vida inspiradora e cheia de aventura: um surfista brasileiro que venceu o câncer aos 25 anos, virou voluntário da ONU e registrava como fotógrafo cenas no Iraque e na Síria. Essa era a vida de Eduardo Martins - que na verdade nunca existiu como se apresentava.
No Instagram, Eduardo tinha mais de 120 mil seguidores, incluindo o perfil oficial das Nações Unidas e portais de imprensa como Vice e Al Jazeera. Ele se apresentava como um paulistano que ficou sete anos lutando contra o câncer e deixou o Brasil como voluntário. Agora, estava trabalhando como fotógrafo em locais de guerra.
Segundo a Sputnink, ele se apresentava como morando em Beit Hanoun, na Faixa de Gaza, de onde partia para vários cantos do mundo. Ele contava ter acompanhando a batalha por Mossul, no Iraque, e o conflito da Síria. Ganhou dinheiro vendendo fotos para veículos grandes, como DW, BBC e Wall Street Journal - locais que provavelmente nunca esteve. Em entrevistas, ele se mostrava um cara heroico. "Uma vez, durante um tiroteio no Iraque, eu parei de fotografar para ajudar um menino que tinha sido atingido por um molotov e o retirei da zona de tiro. Eu paro de ser fotógrafo para ser um ser humano", disse para a Recount Magazine, em outubro de 2016.
O colunista Fernando Costa Neto, do portal Waves, que tinha feito uma matéria com o fotógrafo, foi quem divulgou a história da farsa primeiro, depois de receber ligações de jornalistas querendo verificar a história de Eduardo. Ao entrar em contato com o rapaz, ele deu um paradeiro diferente do que tinha relatado anteriormente.
“Estou na Austrália. Tomei a decisão de passar um ano uma van. Vou cortar tudo, inclusive internet. Quero ficar em paz, a gente se vê quando eu voltar. Qualquer coisa, me escreve no dudumartisn23@yahoo.com. Um grande abraço, Vou deletar o zap. Fica com Deus. Um abraço", dizia a mensagem.
"Ele era um grande surfista. Quando não estava em campo com as tropas acompanhando a retomada de Mosul, no Iraque, estava surfando em Mentawaii, Fiji ou Puerto. O cara era queridão, além de um talento enorme e bonito pra cacete. Os comentários das namoradas e dos amigos dele no insta eram calorosos, sempre saudosos das baladas e tal (...) Edu Martins enganou este jornalista que escreve a vocês. Também uma namorada virtual carioca que está completamente apavorada com tudo isso, os principais veículos de comunicação do mundo e sabe-se mais quem", escreveu Costa Neto.
O perfil de Eduardo no Instagram foi deletado e o site onde ele apresentava seus trabalhos também. O domínio, segundo a Sputnik, foi comprado por meio da Perfect Privacy, dos EUA, que é especializada em deixar no anonimato quem pretende manter um site.
O fotógrafo paulistano Ignário Aronovich, que não conhecia Eduardo nem seu trabalho, ficou curioso com o caso e acabou notando que as fotos do "colega" pareciam ser espelhadas. Ele colocou as fotos invertidas na busca de imagens pela internet e descobriu que na verdade a maioria é do fotógrafo americano Daniel C. Britt, que vive na Turquia. A partir daí, outros fotógrafos acabaram descobrindo que Eduardo usava fotos de vários profissionais.
Adrian Edwards, chefe de imprensa da ONU em Genebra, afirmou à BBC Brasil que não há nenhum registro de Eduardo trabalhando para o Alto Comissariado para Refugiados da organização. Fotos de Eduardo, quem quer que seja, são comercializadas pelo banco de imagens do Getty Images, custando US$ 575 cada. (As informações do Correio)

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